José Bezerra destaca importância dos coletivos fotográficos

José Bezerra - Entrevista

José Bezerra Neto Segundo

Mossoroense, José Bezerra Neto Segundo, de 33 anos, é formado em Tecnologia em Redes de Computadores e pós-graduado em Análise de Redes de Computadores. José Bezerra também é conhecido pelo trabalho que desenvolve como fotógrafo documental. Em entrevista a DOMINGO, o fotógrafo, que diz estar em um período de transição em sua vida profissional, fala sobre o trabalho que desenvolve no segmento da fotografia documental, suas referências e inspirações e o Coletivo Monxorós Fototribo, grupo que integra. Ele também avalia a repercussão da exposição “Liberdade” realizada pelo Coletivo em parceria com o Partage Shopping. Para ele, talvez o mercado da fotografia já esteja saturado em determinadas áreas, mas a fotografia vai além das áreas exploradas. A imagem que ilustra a capa desta publicação foi escolhida pelo próprio fotógrafo, por, segundo ele, sintetizar bem o seu trabalho.

 

DOMINGO – Alguns dos seus trabalhos participaram da exposição Liberdade no Partage Shopping Mossoró, realizada entre os dias 15 e 30 de setembro pelo Coletivo Monxorós Fototribo. Como você avalia os resultados da exposição?
JOSÉ BEZERRA – A exposição trouxe ao grupo respaldo importante na realização de atividades que envolvem o fomento às artes visuais, com ênfase a fotografia. Os 15 dias de visitação no Shopping Partage Mossoró renderam pelo menos 3 mil visitações, segundo o livro de assinaturas. De imediato, todos do coletivo avaliamos com muitos bons olhos este retorno da população em prestigiar evento que infelizmente não é tão comum quanto deveria. Esta exposição foi um indicador importante para darmos continuidade aos projetos do coletivo Monxorós.

 
O QUE é o Coletivo Monxorós Fototribo e qual o objetivo do grupo?
ESTE coletivo é um grupo de fotógrafos que, apesar de possuírem diferentes formas de enxergar nossa cultura, alimentam a proposta de usar esta linguagem visual como documento, cultura e arte. O nosso objetivo é produzir material fotográfico suficiente que sirva de documento histórico de nossa época, agregando também qualidades estéticas e artísticas a este processo de documentação.

 
COMO surgiu a oportunidade de você fazer parte desse grupo de fotógrafos?
NA REALIDADE, tive o privilégio de participar dos diálogos que culminaram na criação deste coletivo. Juntamente com Pacífico Medeiros e Márcio Barbosa, chegamos à conclusão que estava mais do que na hora de nos organizarmos para dar vazão ao material fotográfico que já estava sendo gerado informalmente. Marcos Melo foi convidado pelo coletivo pela qualidade e coerência de seu trabalho. Atualmente, o coletivo conta quatro membros, que tomam as decisões democraticamente, levando em consideração levar à população imagens que retratem nossa própria cultura.

 
QUAL a importância da formação de grupos como esse?
PRIMEIRO fator é, sem dúvida, a organização. Quando nos organizamos, geramos melhor representatividade e consequentemente temos maior respaldo na proposição de iniciativas que fomentem as artes visuais por meio da fotografia. O coletivo Monxorós é apenas um de outros que deverão surgir. Esperamos que essa união entre fotógrafos possa servir de semente para o surgimento de outros grupos. Outro detalhe importante é a criação de coerência e direcionamento na produção fotográfica. Através de reuniões, o coletivo debate pautas, técnicas e diferentes olhares sobre o contexto. Isso nos permite um crescimento exponencial que dificilmente conseguiríamos se trilhássemos solitariamente esse caminho. Entretanto, isso não significa que os olhares serão idênticos. Cada fotógrafo possui um jeito particular de olhar o mundo a sua volta. E, por fim, um fator que consideramos deveras importante é a captação de recursos para concretizar projetos. Através do coletivo, conseguimos viabilizar duas exposições em 2014. Para 2015, daremos continuidade com atividades que vão desde exposições a palestras e oficinas. Temos grande interesse em trabalhar com instituições de ensino e em cooperação com professores e produtores de conteúdo cultural.

 
MOSSORÓ ainda é carente de espaços para exposição desse tipo de arte?
PODE parecer estranho, mas acredito que não. Apesar de termos apenas um local específico, a sala Joseph Boulier no Memorial da Resistência, temos diversos outros espaços que podem ser utilizados para tal fim. Antes de expormos no shopping Partage Mossoró, realizamos exposição semelhante na Biblioteca Municipal Ney Pontes Duarte, onde a receptividade foi ótima. Estou ciente que existem diversos locais, como restaurantes e cafés na cidade, que poderiam agregar valor aos seus espaços incluindo exposições fotográficas. O mossoroense não possui o costume de sair de sua casa para visitar exposições. Entretanto, percebemos algo importante. Se posicionarmos as exposições em locais que possuam grande fluxo de pessoas, estas irão parar por um instante para apreciar as fotografias. Foi assim na biblioteca e no shopping. Estamos cientes de que um local específico é algo valioso. Mas estamos numa fase de cultivar apreciadores e despertar nestes um interesse real por trabalhos fotográficos. Portanto, espaços públicos são muito mais eficazes nesse sentido. Não posso estipular o tempo em que isso vai acontecer. Todavia, estamos cientes de que a construção de um público é primordial. Com um público formado, todo o resto virá por consequência.

 
E O que a fotografia significa para você?
UMA viagem introspectiva trilhada pelo caminho de autoconhecimento.

 
COMO essa arte entrou na sua vida?
INICIEI a fotografia durante um momento em minha vida em que buscava uma linguagem de expressão. Comecei a fotografar em 2007, quando comprei um celular. Me dediquei a estudar formas e texturas em detalhes. Posteriormente, descobri que esse caminho já tinha nome. O miksang é uma técnica fotográfica derivada dos conhecimentos de meditação tibetana. Uma maneira de observar o microcosmo para somente, então, conectá-lo ao macrocosmo. Somente em 2012, comecei a centralizar o ser humano e seu cotidiano, algo que o fotógrafo Pacífico Medeiros teve um papel importante. A partir desse momento, passei a trilhar a fotografia documental. Não considero muito tempo, mas os estudos são muitos, intensos e diversos. Já perdi a conta de quantas madrugadas passei observando imagens de grandes fotógrafos, tentando destilar a essência dos bons trabalhos. Não se trata apenas de copiar, mas de adequar os detalhes a sua forma de comunicar-se. Analogamente, quando somos alfabetizados, todos passamos pelos mesmos processos educativos, mas alguns conseguem se destacar pelos ideais que possuem para o uso das palavras. Não enxergo diferente no estudo da fotografia. Os bons fotógrafos conseguem sintetizar nas imagens aquilo que os escritores fazem artisticamente em seus textos. Isso requer, além dos estudos técnicos, uma conexão abstrata entre o fotógrafo e aquilo que deseja retratar.

 
QUAL sua inspiração?
POR ter hoje um compromisso com a fotografia documental dentro do nosso Estado, minha maior inspiração é na própria gente que nele vive. Costumes, tradições e principalmente o trabalho são as fontes em que busco a estética desses registros. Costumo conversar bastante com os fotografados. Rotineiramente, estou visitando comunidades rurais e costeiras, além das cidades, de modo a preservar imageticamente costumes que tendem a modificar-se com o passar das gerações.

 
QUAIS as referências do seu trabalho?
ESTE trabalho possui duas vertentes principais. A primeira é o lado humanístico, em que busquei referências nos trabalhos dos fotógrafos Sebastião Salgado e João Roberto Ripper. Esse trabalho fotográfico possui uma característica de captar, na espontaneidade, os registros. Por conta disso, a segunda vertente que norteia esse trabalho é o instante decisivo pregado por Henri Cartier-Bresson. Mas, gostaria de citar outros fotógrafos que têm sido importantes nesse processo de investigação fotográfica. São eles: Tadeu Vilani, Marcelo Buainain, Araquém Alcântara, Giovanni Sérgio, Jean Lopes, Pacífico Medeiros e Odilon Araújo.

 
A FOTOGRAFIA é apenas um hobby ou sua profissão? Qual o trabalho que desenvolve como fotógrafo profissional?
DIRIA que nenhum nem outro, pois ela já não é hobby, por haver compromisso com essa documentação. E não é ainda minha profissão principal, pois a maior parte de minha receita financeira é oriunda do trabalho como analista de redes. Entretanto, é possível que em pouco tempo a fotografia passe a ser minha profissão principal. Diria que estou hoje em um momento de transição. A fotografia documental não tem um apelo comercial, mas é possível captar recursos através de editais, venda de fotografias para decoração de ambientes, publicação de livros, dentre outros serviços.

 
ATUALMENTE, em Mossoró, existe muita gente trabalhando com fotografia. Pode-se dizer que o mercado já está saturado?
TALVEZ, para determinadas áreas, sim. Mas a fotografia não se restringe apenas às áreas comumente exploradas.  Apesar de a fotografia social (casamentos, aniversários, books, etc.) ser o caminho mais confiável hoje para se conseguir gerar receita, acredito que existam outros meios para se alcançar a tão sonhada sustentabilidade através da fotografia. Confesso que essa não é a minha seara. Não aprecio trabalhar com cenas posadas, onde as pessoas ensaiam momentos numa tentativa de representar aquilo que desejam, sob a orientação do fotógrafo. Assim como também não condeno quem as faz. Mas prefiro outra maneira de conseguir os registros. Vejo como uma questão de estilo, dentro de um universo de possibilidades.

 
QUAL o segredo de uma boa foto e o que é preciso ter para ser um bom fotógrafo?
ACREDITO que não há apenas uma resposta. E o que descreverei não deve ser tomado como regra, mas somente como uma experiência. Atualmente, estou imerso na temática humano-documental. E para trilhar por esse caminho mostrando um trabalho de qualidade, não me fiz valer somente dos conhecimentos técnicos. A técnica é deveras importante, sem dúvida. Mas somente ela não é suficiente para transcender. Portanto, buscando justamente apresentar um olhar diferenciado tem sido na interação e intimidade com os fotografados o caminho mais eficaz para produzir boa fotografia. O fotógrafo documentarista precisa, antes de tudo, conhecer bem aquilo que fotografa, sentir verdadeiramente aquilo que registra. Penso hoje que o real envolvimento do fotógrafo com o contexto que se dispõe a captar seja um dos caminhos para ser um bom fotógrafo. Para se ter ideia prática do que descrevo, uso meu próprio exemplo. Essa interação e intimidade com os fotografados me fez desejar não só conviver, mas sentir por algum tempo parte da realidade que vivem. Costumo dormir e me alimentar exatamente como fazem. Procuro ouvir suas histórias, buscando sentir o impacto e importância de cada palavra. Faço leituras sobre comportamento e linguagem corporal, buscando identificar os reais sentimentos por trás daquelas palavras. Mas, tornar-se um bom fotógrafo não deve, jamais, ser o suficiente. Devemos transcender. Senão, corremos o risco de ser uma mera cópia daquilo que já foi feito por tantos outros bons fotógrafos. O mestre Cartier-Bresson sintetizou tudo numa frase: “Fotografar é colocar na mesma linha a cabeça, o olho e o coração”. Finalizando, creio ser o equilíbrio dessas três variáveis um dos caminhos confiáveis para ser um bom fotógrafo.

 
GOSTARIA de dizer mais alguma coisa?
ALGUMAS pessoas interpretam erroneamente esse trabalho como uma documentação da pobreza. Gostaria de esclarecer que não tenho intenção de documentar a pobreza, mas a simplicidade. Algumas pessoas que fotografo carregam o fardo da pobreza, sim, mas nos registros que busco fazer tento trazer à tona um contexto humanizado de pessoas que possuem em seu cerne a simplicidade e os bons costumes. Essas pessoas que fotografo se entregam despretensiosamente e aceitam fazer parte de uma documentação fotográfica. Faço questão de explicar a elas qual o propósito desse trabalho. A maioria sente-se convidada a participar e assim o faz. Portanto, não alimento a pobreza para explorá-la esteticamente. Procuro contar histórias de pessoas simples, mas que para seus pares são vistas como heróis e principalmente pessoas de bem.

 

Fonte: Jornal de Fato