José Bezerra destaca que a fotografia é um caminho de autoconhecimento

Com 16 prêmios conquistados entre 2013 e 2015, ele tem levado o nome de Mossoró para importantes concursos do país.

José Bezerra - Entrevista (Foto Pedro Medeiros)

“Percebi que é nas pequenas ações que reside a beleza do cotidiano” – José Bezerra (Foto: Pedro Medeiros)

 

Há sete anos José Bezerra começou a fotografar, mais foi somente no final de 2012 que passou a se dedicar exclusivamente à fotografia autoral, voltando-me para pequenas comunidades e o cotidiano no interior do Rio Grande do Norte.  Com 16 prêmios conquistados entre 2013 e 2015, ele tem levado o nome de Mossoró para importantes concursos do país. Mesmo valorizando a importância do reconhecimento, ele defende que os prêmios nunca devem se sobrepor ao objetivo do seu trabalho, que é levar nosso contexto cultural a quem estiver disposto a ver. Conheça um pouco mais sobre José Bezerra:

 

Você buscou referências em quais profissionais?

José Bezerra – Inicialmente estudei e ainda continuo a analisar as obras dos grandes mestres, tanto na pintura quanto na fotografia. Citaria entre os pintores; Caravaggio, El Greco, Goya e Velázquez. Quanto aos fotógrafos, inicialmente comecei estudando a obra de Cartier Bresson e George Brassai. Entretanto, hoje tenho maior influência pelos trabalhos do Sebastião Salgado e João Roberto Ripper. Além é claro dos fotógrafos locais, a quem tenho muito apreço pelos trabalhos de Pacífico Medeiros (Mossoró), Jean Lopes (Assu) e Giovanne Sérgio (Natal). Há também vários outros, pois a pesquisa nunca cessa (risos).

 

Explica a escolha pelo preto e branco?

José Bezerra – Em 2012, quando passei a inserir o ser humano como tema central deste trabalho, fiz algumas experiências em preto e branco. E percebi o fato que já havia lido em algumas pesquisas que fiz; que o preto e branco realça as expressões e nos leva a concentrar-se nas formas. Portanto, se um dos objetivos deste trabalho é mostrar que há beleza nas cenas mais comuns em nossa cultura, nada como usar deste artifício para levar o expectador a focar-se nisso, mesmo sem ter consciência disto. Por questões ideológicas sou contrário aos padrões de beleza impostos a nossa sociedade. Parte deste trabalho é visando justamente mostrar que em nosso dia a dia há beleza. Uma beleza sem retoques, lapidada pelo tempo, tendo como molde o meio onde estamos inseridos.

 

Qual o equipamento que você utiliza?

José Bezerra – Hoje utilizo uma canon, modelo 60D, com lente 17-50mm f2.8. É um equipamento modesto, mas suficiente para o que tenho feito hoje.

 

Como você se sentiu com a proposta do Pedro Medeiros?

José Bezerra – Fiquei surpreso inicialmente. Mas durante os diálogos com o Pedro senti que a ideia era principalmente ideológica. Quando percebo uma ligação pela identidade à nossa cultura, é sem dúvida estimulante. Após umas duas conversas que ocorreram em Mossoró, acordamos em realizar as gravações em novembro. Pedro, eu e a equipe adoramos todo o trabalho. Desde a recepção dos residentes na localidade rural em Campo Grande/RN, até as belezas paisagísticas presentes no local. Isso contou bastante para o resultado final deste projeto áudiovisual.

 

No curta, você fala que “A fotografia é um caminho de autoconhecimento”. Como essa experiência mudou sua forma de pensar e agir?

 José Bezerra – O fotógrafo brasileiro Araquém Alcântara costuma falar exatamente isso. Ouvi suas palavras durante o documentário “Caçadores de Almas”, exibido na TV Brasil em 2013. Aquilo ecoou dentro da minha mente e passou a ser objeto de análise e reflexões. Após algumas experiências que presenciei, pude sentir a verdade por trás daquela frase. E a partir de então, agreguei este mote a minha vida como fotógrafo. Esta experiência mudou principalmente o que nós valorizamos de fato. Percebi que é nas pequenas ações que reside a beleza do cotidiano. Não só como pensamos e agimos, mas principalmente o porquê de agirmos e pensarmos de uma dada maneira. No curta-documental falo um pouco disso. De como passei a valorizar a água, o alimento e a cordialidade entre pessoas de caráter e palavra firme.

 

Seu trabalho tem um forte tom autoral, o que lhe inspira?

José Bezerra – Hoje estou imerso dentro do contexto informal presente no interior do Rio Grande do Norte. Das cidades as pequenas comunidades, dos personagens e seus estereótipos, tento extrair a beleza que não temos mais tempo de observar. Hoje todos correm, como o coelho branco em Alice no País das Maravilhas. Hoje, parar somente para observar o cotidiano parece algo bizarro e sem sentido. Mas as imagens que tenho conseguido captar revelam justamente o oposto. A beleza sempre esteve lá, basta que observemos o que acontece a nossa volta. Entretanto, um dos focos deste trabalho é voltar a enxergar como criança. O olhar infantil, além de lúdico, é repleto de belezas e valorização das pequenas coisas. Posso afirmar que este só me fez bem, principalmente pela capacidade readquirida de sonhar.

 

Sua fotografia capta personagens que parecem estabelecer um vínculo próximo como as lentes. Imagino que isso deve ocorrer devido a muita conversa anterior aos cliques e por você ficar à vontade no cenário deles. É assim que ocorre?

José Bezerra – Precisamente. Uso, praticamente uma lente só, uma grande angular. E utilizo somente esta pela necessidade de trabalhar uma fotografia intimista. Tenho que está próximo para fotografar. E nesta aproximação há uma abordagem social importante, que não só objetiva explicitar qual meu objetivo naquele contexto, como também em criar um vínculo de amizade e confiança entre o fotógrafo e fotografado. Quando passei a inserir o ser humano como foco principal deste trabalho (valiosa observação dada por Pacífico Medeiros), comecei a pesquisar também como realizar uma abordagem suave e que permita certo grau de intimidade. Entre o final de 2012 até 2014, me aprofundei numa técnica chamada “Comunicação Não Violenta”. Esta técnica, desenvolvida pelo dr. em psicologia Marshall Rosenberg, foi vital para dar um passo além da fotografia que vinha maturando. Dificilmente fotógrafo sem uma conversa prévia. Isso só costuma acontecer em eventos públicos onde não há muito tempo para diálogos. Hoje, posso afirmar com orgulho, que fiz amigos em vários lugares por onde passei. E, este trabalho, é principalmente desenvolvido na casa de cada fotografado. Costumo dormir nos alpendres, me alimento do que comem e ouço seus lamentos, alegrias e planos. A concepção fotográfica deste trabalho é alimentado pelo viés etnográfico feito previamente.

 

Fotografar é uma forma de revelar seu olhar sobre o mundo. Sensibilidade e técnica fazem a diferença. Quais os seus planos para o futuro?

José Bezerra – Atualmente venho trabalhando maneiras de tornar esta fotografia autoral sustentável. E para tal tenho adotado uma postura mais artística, visando o mercado de fotografias como peças decorativas para ambientes. Conhecida entre os fotógrafos como padrão fineart, são impressões feitas em papel especial com tinta de pigmento mineral, que atendem aos mais exigentes padrões museológicos. São papéis que tem durabilidade de 100 anos, a prova de mofo, traças, etc. Esse é um mercado muito bom, mas em nossa região ainda engatinha e é pouco valorizado. Recentemente, através de uma galeria em São Paulo, tive 10 peças compradas por um cliente em Tiradentes/MG. E tudo indica que haverá lá uma exposição deste trabalho ainda neste primeiro semestre. Aqui em Mossoró há alguns clientes interessados, mas culturalmente o preço afugenta. Pretendo realizar pelo menos duas exposições este ano, incluindo Mossoró. Diariamente divulgo este trabalho através de nossa página no Facebook. Há um bom material lá para ser visto e apreciado.

 

Fonte: Gazeta do Oeste